segunda-feira, 17 de março de 2008

A alternativa dos tecnólogos

Muitos países adotaram a solução dos cursos profissionalizantes para atender ao mercado com rapidez. No Brasil, o tema ainda é cercado de dúvidas e preconceitos

ES
 

Aula prática: governo começa a investir na opção

O desafio chega à sala de aula e revigora o debate em torno dos cursos profissionalizantes de nível superior. Não chega a surpreender. São de curta duração - e a indústria tem pressa. Preparam para funções específicas - e especialização é palavra de ordem na economia global. "A escola formal não vai dar conta nunca dessa formação. É lenta por natureza, enquanto o mercado tem necessidades mais imediatas", argumenta Ângelo Luiz Cortelazzo, coordenador da Assessoria para Assuntos de Educação Superior (Aesu) do Centro Paula Souza, autarquia do governo estadual paulista e mantenedora das Fatecs.

Como ele, não são poucos os que defendem que a formação de tecnólogos deve ser privilegiada frente à gradua­ção convencional.

"Todos os países onde o ensino superior mais cresceu investiram maciçamente nos cursos vocacionais de curta duração. Aqui, caminhamos na contramão, com menos de 2% dos alunos na formação superior profissionalizante, segundo o censo do Inep de 2005", critica Renato Pedrosa, do Departamento de Matemática da Unicamp.

O pesquisador cruzou dados da OCDE e do IBGE (Pnad) para concluir que a Coréia do Sul aumentou em 410% a participação da população mais jovem no ensino superior (de 25-34 anos sobre a fatia de 55-64 anos). "Cresceu 250% na graduação tradicional e 1.800% nos cursos vocacionais", compara. O mesmo fenômeno aconteceu na Espanha, Japão, França e Chile, enquanto o Brasil cresceu tímidos 13% na população mais jovem, com até 25 anos, e 30% nos últimos dez anos se considerada a faixa estendida, de até 34 anos.

O estudo também confronta faixas salariais - o tecnólogo com rendimento 24% inferior - e apresenta os índices da OCDE sobre empregabilidade, onde bacharéis e egressos dos cursos de curta duração empatam, com 84%.

Parecem sobrar argumentos em defesa dos cursos superiores de curta duração. Outra vantagem, sustentam os entusiastas, é que com os mesmos recursos o modelo permite incluir mais alunos se comparado à graduação tradicional. A cada R$ 50 milhões investidos é possível criar dez mil vagas profissionalizantes, por meio de convênios entre o governo federal, estados e prefeituras, estima o pesquisador da Unicamp.

Mas a questão está longe de traduzir consenso. Para muitos, os cursos tecnológicos são um convite a uma relação de submissão do mundo acadêmico ao mercado de trabalho. Outros sustentam que o preconceito vem do próprio mercado, sob a ótica de que os contratantes ainda preferem um administrador de empresas a um tecnólogo em gestão de planejamento e marketing, visto como profissional de segunda linha. "A expansão dos tecnólogos esbarra em um viés cultural. É um debate que ainda não está sendo atendido pela indústria e esbarra na cultura cartorial e bacharelesca do mundo acadêmico", diz o presidente do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras (Crub) e reitor da Uerj, Nival Nunes de Almeida.

No outro extremo, há quem conteste o próprio modelo de formação. "Não vejo lógica em gastar energia com esse tipo de formação aligeirada, que tem a tendência de desprestigiar o profissional", diz César Minto, da Faculdade de Educação da USP e vice-presidente da Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo (Adusp). "Por que então não melhorar os cursos profissionalizantes de nível médio?", propõe. 

A defesa de Minto, professor licenciado de Política Educacional, é ancorada na tese de que a educação também tem dívidas a saldar com o ensino médio profissionalizante, uma das estrelas da LDB 5.692/71, abandonado em um processo que recrudesceu nos anos 80. "Não dá para ignorar a pressa da indústria, mas educação é um processo e leva tempo. Se não investirmos na base, teremos novos gargalos pela frente. Como política pública, melhor seria investir na formação básica e na qualidade do ensino médio, enquanto as indústrias, emergencialmente, poderiam abraçar a formação para o mercado", sugere.

A despeito das polêmicas, a tendência parece apontar para a expansão dos cursos profissionalizantes. O Ministério da Educação definiu as diretrizes para a formação profissionalizante e está induzindo à criação de novos cursos. O próprio governo anunciou investimentos de R$ 3,5 bilhões até 2010 para abrir 200 novos Cefets, os Centros Federais de Educação Tecnológica, além dos 140 existentes.

Ângelo Luiz, coordenador do Centro Paula Souza: por natureza, escola formal não atende à demanda imediata do mercado

As Fatecs paulistas pretendem dobrar o número de matrículas nos próximos três anos. Hoje, são a instituição pública que mais oferece vagas: 6.175 a cada semestre. A avaliação é que 92% dos formados estão empregados em até um ano, com média de remuneração de R$ 1,8 mil.

De olho na expansão do setor, inauguram este ano o curso de Bioenergia Sucroalcooleira, em três novas unidades: Araçatuba, Piracicaba e Jaboticabal, com 80 vagas por semestre e duração de três anos. "É um investimento alto, perto de R$ 2 milhões só em infra-estrutura", diz Cortelazzo. "A maior parte vem do governo do Estado, mas todas as Fatecs têm participação do município", esclarece.

Mas o esforço promete valer a pena. Pelos cálculos do mercado, há 120 novas usinas em planejamento, algumas já em execução. Estudo do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Estratégico (Nipe) da Unicamp, em conjunto com o MCT, sinaliza que o Brasil deve produzir até 2025 cerca de 205 bilhões de álcool combustível por ano, o suficiente para substituir 10% de toda a gasolina consumida no mundo. A União dos Produtores de Bioenergia (Udop) apóia a iniciativa das Fatecs, que, aos poucos, começam também a contar com o suporte de outros setores da economia. É o caso do curso de Silvicultura, aberto em Capão Bonito, interior paulista, em parceria com a Votorantim; o de Tecnologia em Metalurgia, implantado na Fatec Pindamonhangaba para atender à demanda do parque siderúrgico local, e da Fatec Santo André, na região do ABC, que oferece o curso de Eletrônica - Modalidade Autotrônica, em parceria com as montadoras da região, entre elas Volkswagen, General Motors e Mercedes-Benz. Ainda em 2008, deve receber o apoio da Petrobras para inaugurar na baixada santista cursos na área de petróleo e gás natural.

Fonte:http://revistaensinosuperior.uol.com.br/textos.asp?codigo=12097


2 comentários:

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