segunda-feira, 15 de junho de 2009

Por que a maioria da ciência brasileira é tão pouco citada?

Do Blog de Suzana Herculano-Houzel (Professora da UFRJ):

"Por que, então, a maioria da ciência brasileira é tão pouco citada?", pergunta alguém na platéia. Izquierdo não hesita: "porque ela é superficial: são, em sua maioria, estudos superficiais sobre questões superficiais, necessariamente publicadas portanto em revistas também superficiais. Izquierdo diz que a política brasileira de aferir número de publicações, e não impacto das publicações, dos pesquisadores reforça isso. É o que eu, desde quando voltei ao Brasil, chamava, chateada, de ciência de "abrir-a-geladeira-e-ver-qual-droga-vamos-testar-hoje". Fiquei confortada de ouvir que alguém do calibre dele compartilha da minha crítica. Falta de recursos não justifica falta de boas idéias.


Fonte:  http://www.suzanaherculanohouzel.com/journal/2009/6/13/agora-a-tiete-sou-eu-que-simpatico-o-izquierdo.html


Agora a tiete sou eu: que simpático o Izquierdo!

Conheço-o apenas de trocar cumprimentos e conversas rápidas em congressos, nos quais ele sempre me cumprimenta calorosa e efusivamente (sempre para minha grata surpresa, pois sinceramente não sei o que fiz para merecer isso), e admiro-o desde quando descobri seu trabalho através do seu livro A Arte de Esquecer. E hoje, graças a um novo formato peculiar de apresentação no 5o Congresso de Cérebro, Emoção e Comportamento, onde estou em Gramado (RS), gosto ainda mais dele.

O formato da apresentação permitiu que Iván Izquierdo, esse neurocientista brasileiro mas argentino de nascimento, falasse sobre o sucesso de seu grupo de pesquisa, que ele lidera no Rio Grande do Sul (primeiro na UFRGS, e há alguns anos na PUC-RS) há 34 anos. Com cerca de 300 artigos publicados, já citados em outros trabalhos mais de 12.000 vezes (!) - o recorde brasileiro, de longe -, Izquierdo fala com a tranquilidade e amabilidade de quem não precisa provar nada para ninguém. Sua autoridade é natural, merecida, não auto-proclamada.

Izquierdo contabiliza uma longa lista de mestres e doutores formados em seu laboratório, e contribuições reconhecidas internacionalmente em várias áreas relacionadas à neurobiologia da memória: formação paralela de memórias de curta e longa duração, extinção de memórias, persistência, efeito do estado hormonal, e até o envolvimento fisiológico da proteina prion na formação da memória. Toda sua pesquisa é feita no RS há mais de 30 anos, o que mostra que nenhum fator interno impede a ciência brasileira de ser altamente eficiente, bem-sucedida, altamente citada.

"Por que, então, a maioria da ciência brasileira é tão pouco citada?", pergunta alguém na platéia. Izquierdo não hesita: "porque ela é superficial: são, em sua maioria, estudos superficiais sobre questões superficiais, necessariamente publicadas portanto em revistas também superficiais. Izquierdo diz que a política brasileira de aferir número de publicações, e não impacto das publicações, dos pesquisadores reforça isso. É o que eu, desde quando voltei ao Brasil, chamava, chateada, de ciência de "abrir-a-geladeira-e-ver-qual-droga-vamos-testar-hoje". Fiquei confortada de ouvir que alguém do calibre dele compartilha da minha crítica. Falta de recursos não justifica falta de boas idéias.

A receita do sucesso de seu grupo? "Trabalhar, trabalhar, trabalhar; dialogar, dialogar, dialogar. Não considero meus estudantes subalternos, mas jovens que, como jovens, têm comportamento diferente do meu", diz ele com seu sotaque carregado, mas de tom sempre simpático, um prazer de ouvir. Lá fora os estudantes me cercavam para tirar fotos comigo. Fiquei com pena de não ter podido eu mesma tirar foto com o Iván Izquierdo. Era minha vez de fazer tietagem neurocientífica!



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