quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

A revolução da lógica

18/12/2008

Por Alex Sander Alcântara

Agência FAPESP – Se Aristóteles foi o pai do pensamento lógico, o alemão Gottlob Frege (1848-1925) foi o fundador da moderna lógica matemática. Em 1879, o filósofo publicou o texto Begriffsschrift, literalmente "conceitografia", no qual descreveu pela primeira vez um sistema de representação simbólica capaz de formalizar a estrutura lógica dos enunciados, possibilitando uma caracterização precisa do que é uma dedução lógica.

A partir desse texto que inaugurou a lógica moderna, o professor Luiz Henrique Lopes dos Santos, do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), analisou profundamente a concepção fregiana da lógica do ponto de vista metodológico. O resultado é o livro O olho e o microscópio, que acaba de ser lançado.

De acordo com Lopes dos Santos, por ter desenvolvido instrumentos conceituais para a análise lógica da linguagem, Frege (pronuncia-se "Frêgue") teve influência direta sobre os chamados filósofos analíticos do século 20, como Bertrand Russell (1872-1970) e Ludwig Wittgenstein (1889-1951).

"Frege trabalhou na fronteira entre a filosofia, a lógica e a matemática. Ele criou e sistematizou – lógica e filosoficamente – as bases conceituais da lógica matemática. Sua importância para a história da filosofia se deve também a seus trabalhos sobre filosofia da matemática, nos quais desenvolveu detalhadamente a idéia de que a aritmética é uma parte da lógica geral", disse à Agência FAPESP.

Lopes dos Santos, que é coordenador da área de Humanidades da FAPESP e coordenador científico da revista Pesquisa FAPESP, traduziu o livro Fundamentos da aritmética e outros ensaios de Frege, publicados na coleção Os pensadores, da Abril Cultural. Do filósofo alemão também foram publicados no Brasil alguns de seus principais artigos na coletânea Lógica e filosofia da linguagem, da editora Cultrix.

O olho e o microscópio, de acordo com Lopes dos Santos, é uma versão reformulada de sua tese de doutoramento, defendida na USP em 1981. O livro analisa de forma didática e concisa algumas das questões fundamentais da filosofia contemporânea como linguagem, pensamento e verdade; linguagem formal e linguagem natural, suas possibilidades e limites; natureza e fundamentos da lógica.

"No primeiro capítulo, apresento a maneira como Frege define a natureza e os fundamentos da lógica. Em seguida, abordo como ele concebe as relações entre o trabalho de construção do sistema da lógica e a análise lógica da linguagem, ordinária e científica. E, finalmente, no terceiro capítulo destaco como a linguagem aritmética serve de modelo para a construção do sistema fregiano de lógica", explicou.

Segundo o professor da USP, diferentemente do filósofo grego Aristóteles, que empregou como modelo a linguagem ordinária, o sistema lógico fregiano parte da linguagem aritmética. No livro, o autor estabelece essa distinção.

Lopes dos Santos explica que o título do livro remete a uma analogia que Frege utiliza para esclarecer a diferença funcional entre a linguagem artificial da lógica e a linguagem natural. Segundo ele, assim como o olho humano, a linguagem natural, por sua agilidade, capacidade de adaptação e abrangência, paga o preço da imprecisão na apresentação dos detalhes.

"Como o microscópio, a linguagem artificial da lógica compensa a limitação de seu campo de aplicação com sua extraordinária acuidade. Assim como o olho e o microscópio, a linguagem lógica e a linguagem ordinária desempenham, enquanto instrumentos de conhecimento, funções distintas, porém complementares", explicou o autor, que também é pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Além de Begriffsschrift, primeiro texto importante de Frege, outra publicação de destaque do filósofo foi o livro Fundamentos da aritmética (Grundlagen der arithmetik), de 1884, em que critica certas concepções relativas ao status da aritmética, propondo um enfoque novo para a matéria.

Segundo Lopes dos Santos, a contribuição de Frege para o avanço da lógica cede espaço também para o avanço da semântica. Ao analisar temas como "sentido", "referência", "identidade", "negação", "objeto", "asserção" e "verdade/falsidade'", Frege influenciou profundamente a filosofia da linguagem no século 20.

Lopes dos Santos também traduziu o célebre Tractatus Logico-Philosophicus, de Wittgenstein, publicado pela editora da USP (Edusp), e é autor do texto introdutório da edição, intitulado A essência da proposição e a essência do mundo, considerado uma referência na área dos estudos sobre a filosofia da lógica e a filosofia da linguagem contemporâneas.

    O olho e o microscópio
    Autor: Luiz Henrique Lopes dos Santos
    Lançamento: 2008
    Preço: R$ 30
    Páginas: 208

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe seu comentário! Não uso verificação de palavras.

Receba as postagens deste blog por email