quinta-feira, 30 de abril de 2009

Guilherme Bittencourt : Em Busca do Tempo Perdido


From: Rita Maria da Silva Julia <rita em facom.ufu.br>
Date: 2009/4/30
Subject: [Sbc-l] Guilherme Bittencourt : Em Busca do Tempo Perdido



Há cerca de um ano, em uma Banca de defesa de Mestrado,  reencontrei
Guilherme Bittencourt, mais de quinze anos após tê-lo conhecido em Toulouse.
No reencontro em Uberlândia, como não poderia
deixar de ser, falamos sobre livros. Na ocasião, eu lia o primeiro dos sete
que compõem "Em Busca do Tempo Perdido". E, de modo nada diferente da
parcela da humanidade que teve a oportunidade, a sorte (e a calma!) de ler
Proust, estava completamente "nocauteada" com a passagem em que o narrador
revive intensamente, através de uma "madeleine" (prefiro manter
o nome original-ele se parece mais com o bolinho do que o traduzido) , uma
rotina querida de sua infância. O trecho, reduzido e traduzido como posso,
diz:

"Subitamente, a lembrança apareceu para mim. O gosto era aquele da pequena
porção de "madeleine" que no domingo de manhã, em Combray,
quando eu ia lhe dizer bom dia no seu quarto, minha tia Léonie me oferecia,
após tê-la mergulhado no seu chá. A mera visão da pequena "madeleine" não me
havia proporcionado lembrança alguma antes que eu a tivesse provado... Mas
quando de um passado antigo nada subsiste, depois da morte dos seres, após a
destruição das coisas, sós, mais tênues - contudo mais vivazes, mais
imateriais, mais persistentes, mais fiéis, o odor e o sabor persistem ainda
muito tempo, como almas, a se recordar, a esperar, a almejar, sobre a ruína
de todo o resto, a portar sem se dobrar, sobre sua gotícula quase
impalpável, o edifício imenso da recordação". Marcel Proust.


E foi assim que ganhei um interlocutor que também amava Proust.
No último SBIA, eu conversava com um grupo de conhecidos na hora do
intervalo. Guilherme se aproximou com um sorriso sereno e me estendeu a mão
de um modo cuidadoso, como quem porta um tesouro- entregou-me uma
pequena "madeleine" que, surpreendente e deliciosamente, compunha o cardápio
do café. Atônita com a singeleza e a profundidade do gesto e da lembrança,
apenas consegui responder:
-Você não existe, Guilherme!

Mas você existe...Hoje, aqui, você existe nos rastros que deixou:
rastros nos passos da mulher com que compartilhou vida e genes e  nos filhos
que resultaram desse compartilhamento; rastros nas publicações, nas críticas
e nos cumprimentos bem fundamentados com que nos enriqueceu; rastros na
percepção aguda da fenomenal inteligência e do estonteante e frágil
equilíbrio da Natureza.
Pensei que teríamos tempo para discutir o restante da busca de Proust pelo
tempo perdido, mas confundi tudo! O conceito da "relatividade do tempo" é,
em si mesmo, relativo: na prática, na limitação do que conseguimos perceber,
o tempo é absoluto demais- e acaba rápido! Talvez a relatividade esteja no
fato de você ter vivido de modo a merecer existir sempre. Parece-me que
assim será, caro amigo.

Saudade e admiração,

Rita Maria Silva Julia

Faculdade de Computação- Universidade Federal de Uberlândia



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