sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Os problemas da Maratona, sua defesa, e outros links

Já corri 5 maratonas mas não sei se algum dia correrei mais uma. Razões:


  • Você fica acabado após uma maratona. Mesmo profissionais mal conseguem andar nas horas ou dias após a maratona. É muito fragilizante. Acho até mesmo uma má ideia viajar para correr maratona e depois tentar fazer turismo, pois você não está inteiro depois da prova.
  • Dá muito trabalho treinar para uma maratona. A preparação deve começar pelo menos 2 meses antes. Idealmente, 4 meses antes e após pelo menos 2 anos como corredor regular. Deve incluir treinos longos de até 2 horas (um "longão" a cada 2 semanas, em média) e 5 ou mais sessões de treino na semana, incluindo treinos de fortalecimento e educativos.
  • Uma maratona na cidade é algo muito artificial. Você corre num terreno bastante plano (às vezes com subidas e descidas, mas nada como um morro) e praticamente só move as pernas. O movimento é muito repetitivo. Você não pula, salta, se agacha, nada muito diferente. "Só" corre. 
  • O foco nas maratonas de rua é geralmente no tempo que se leva para completá-la. Acho isto também muito artificial.


Ralph Tacconi escreveu, em defesa da Maratona, após eu postar este link no grupo Running/Endurance Paleo Low Carb:

Bom vou expressar minha opinião sobre dois aspectos:

Sobre essa questão de "não evoluímos" para correr longas distâncias. Esse termo é muito usado em universos Páleo e o pessoal que segue e estuda essa linha.
Porém eu faço uma ressalva nessa questão: Essa não evolução se deve ao fato de: não termos evoluído por não sermos capazes ou de não termos evoluído por não ter tido necessidade ?

Podemos pensar que os nossos ancestrais não corriam 40 Kms talvez por não ter necessidade disso e não por não ser capaz. Ao longos dos anos, a nossa espécie talvez não tenha desenvolvido determinadas habilidades simplesmente por não ter utilidade.
Organismos biológicos se adaptam, melhoram e se aperfeiçoam com o tempo e não há nada que comprove que nossos organismos poderiam sim, fazer coisas hoje que não eram capazes de fazer há anos por falta de necessidade.

Isso não é a minha opinião, eu só acho controverso essa história de "nossos acenstrais não evoluiram pra isso". Penso que cabe discussão a respeito.

O segundo aspecto que quero destacar é diretamente ligado a maratona.

Sobre isso, vou dar a minha opinião:
Sei que a maratona me faz mal. Fisicamente. (essa última de Curitiba me deixou muito debilitado realmente).
Concordo com todos os argumentos do Mark Sisson em seu artigo.

Porém, a maratona é algo muito fácil de se apontar como malefício. Os males são físicos, reais, perceptíveis.
E se nós trouxermos isso a outro nível de entendimento? A relação custo-benefício.
A mim, por exemplo posso citar vários aspectos positivos, entre eles:

1 - O treino para a maratona me faz ser saudável. Mantendo atividade física regular.
2 - O desafio que ela proporciona também pode ser salutar.
3 - Um exercício mental muito útil em outros aspectos da sua própria vida.
4 - A euforia de terminá-la.

Existem outros, em menores proporções, mas não vem ao caso.
Sim, você pode dizer: "Ah, mas eu consigo ser saudavel sem precisar correr maratonas" ou então "Tenho outras alternativas para exercício mental". Concordo, mas penso que o conjunto de fatores que vão desde a disciplina nos treinos, até a euforia da conclusão eu só consigo através dela. Sem ela, acho que não reuniria todos esses fatores.

Em outras palavras: Eu sei que a maratona vai me trazer alguns problemas físicos, fisiológicos, porém, o benefício que ela me traz acaba sendo proporcional ou até maior do que esses males.
Alguém pode dizer: "correr maratonas não é saudável". Mas quem consegue ser saudável 100% do tempo ? Ninguém. Você pode encarar maratona como uma espécie de dias do lixo tão comentada nas comunidade de nutrição saudável.

Você pode manter sua alimentção regrada durante a maior parte do tempo, porém, pra viver socialmente adaptado, algumas coisas sempre vão sair do ideal. Uma festinha de criança, um churrasco em família, um jantar comemorativo. Isso é real, ninguém consegue se abster de tudo, pois assim estará abrindo mão de uma vida que também deve ser vivida com outros prazeres.

E esses eventos trazem o mesmo ou até mais malefícios de uma maratona, porém, não são tão perceptíveis assim. Não temos como relativizar um mal que, um estress pancreático causado por uma insulinemia pode ser tão (ou pior) que uma queda de imunidade pós maratona, por exemplo. Ou então, uma crise diarréica (causada por um entupimento de brigadeiros numa festa infantil) pode ser tão ruim (ou pior) quanto dores nas pernas por 3 dias pós maratona. Não sei. Quem pode dizer isso ?

Até onde eu sei, não há danos irreversíveis ao ser correr uma maratona. Como também, não há danos irreversíveis ao ir num rodízio de pizzas.
Eu por exemplo, não vou a um rodízio de pizzas, mas me dá imenso prazer de fazer sobremesas lotadas de açucar quando estou com todos meus filhos reunidos. E quando estou com todos meus filhos juntos ? Esporadicamente, duas vezes por ano. Há mal nisso ? Vou deixar de viver isso ? Definitivamente não.

Portanto, encaro a maratona como o dia do lixo. Duas ou três vezes por ano, me dou esse direito. Judiar um pouco do meu corpo, mas colher os bons frutos que ela me proporciona.

Desculpe se o texto ficou longo.



Paulo Penna escreveu:

Muito bom realmente essa exposição do Ralph Tacconi. Causa uma certa estranheza a forma como o conceito Evolução tem sido utilizado como se fora uma espécie de chancela - ou juiz - para definir o que é saudável e, por detrás disso, o que é recomendável como escolha a ser feita, ensejando, por exemplo, comentários a essa postagem, na página do Paleodiário que flertam com o dogmático. E esse post traz a sensatez e o equilíbrio necessários a questão.

E Roger Paixão completou:

Bom argumento Ralph... eu particularmente acredito q estamos "adaptados" para coisas simples e explosivas... curto demais a visão do Mark Sisson... seu "primal blueprint"... até onde li "em artigos científicos" tudo corrobora nesta direção.

Levar o corpo até o limite é algo q podemos fazer de muitas formas... eu prefiro ñ correr muito... gosto dos tiros rápidos... sou adepto do protocolo SIT há pelo menos 18 meses e estou mto resolvido em termos de saúde...

E acredito q mtos prbls de saúde (sentimento) está relacionado ao uso de calçados... nosso desenho plantar ñ é para o concreto, pista etc... me sinto mto bem fazendo SIT descalço na areia ou na grama...


E você, o que acha?



Exercício é Remédio?


Artigo novo do Dan Lieberman (Harvard):


Is Exercise Really Medicine? An Evolutionary Perspective
"However, there are several lines of evidence that humans evolved to be unique among primates and somewhat unusual among mammals in being especially well adapted for plentiful physical activity dominated by endurance as opposed to power."

Leiam esta parte: em média 31Km e metade andando.

"In the Kalahari, persistence

hunts average 31 km (19 miles), with hunters running only
about half that distance, usually at a moderate pace (23)"





Gostei quando ele diz que não há como estabelecer uma quantidade ideal de exercícios.

Ralph Tacconi:  "Nossa, gostei muito mesmo. Ou seja, fomos evoluídos naturalmente as nos movimentarmos, porém, essa naturalidade tem se perdido ao longo do tempo e cada vez mais atribuímos atividades a formas não naturais."





Retuíte de Tim Noakes em 2013

O prof. Tim Noakes retuitou um tuíte meu.Quer dizer, ele reescreveu e me mencionou:"#Waterlogged makes into top 10...
Posted by Adolfo Neto on Tuesday, January 8, 2013



Periodização do Treinamento e a Corrida Ancestral


Concordo com algumas partes, mas exercício competitivo é natural?

PERIODIZAÇÃO DO TREINAMENTO E A CORRIDA ANCESTRALEsse é o primeiro texto da Ancestral Running com posicionamento,...
Posted by Ancestral Running on Tuesday, December 29, 2015

Exercício Natural?

75 yaşlı kişi ağaca belə çıxdı.
Posted by Bizim Yol on Friday, June 27, 2014

3 comentários:

  1. Comentário do Elizeu Santos-Neto no Google Plus, em 08/01/2016 16:26:




    Concordo com os quatro pontos que colocastes.

    O primeiro, é fácil de adaptar, é só fazer um turismo de recuperação. :-)

    Não vejo o segundo como ruim (para mim ter uma corrida longa como uma maratona como alvo, é meio e não fim, o fim é manter a regularidade nas corridas por meses, o evento dá foco, ajuda a motivar os treinos e mantê-los regulares).

    Terceiro e quarto, concordo totalmente, só depois de correr duas. Hoje estou fortemente inclinado a concentrar em corridas longas em trilhas ao invés de maratonas de rua.

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  2. 1) Vc fica acabado após várias outras atividades físicas que fogem a sua zona de conforto da rotina. Uma trilha de Domingo na Chapada Diamantina ou uma caminhada no Ibirapuera acabam as pernas de um sedentário tb e o tempo de recuperação delas para uma maratona para um ser preparado é quase o mesmo. E meu tour só é bom após as maratonas pq antes delas me privo de várias coisas. A sensação de dever cumprido após elas me motiva para turistar.

    2) Tudo em que nos engajamos dá trabalho para se obter. Nada fácil dá o mesmo tesão que coisas que batalhamos arduamente para conquistar ou aperfeiçoar. Considero o tempo de treinos o tempo que tenho para atingir meu auge do shape, tendo as medidas que quero, me alimentando em quantidades maiores e sabendo que as kcal conseguidas serão usadas de maneira mais sábia que as kcal ingeridas pelos milhares de empresários sedentários que são nossos exemplos de pessoas que "batalham" pelo que "vale a pena".

    3) Muito pelo contrário. Em maratonas tenho meu diálogo com as maiores cidades do meu país e de outros que visito. O movimento é tão repetitivo quanto o do turismo sedentário, sendo que como maratonista estou apto a desfrutar de ambas sensações, enquanto o sedentário ou não maratonista não.

    4)O foco da maratona é algo bastante relativo. Tenho amigos que focam em concluir várias ao ano. Tenho outros que focam no tempo também. Tenho outros que focam no processo de preparação para ela, assim como outros que as usam para agradecer alguns presentes da vida ou simplesmente celebrá-los. Artificial é reduzir as coisas ao óbvio, como dizer que o "futebol são 22 homens atrás de uma bola" ou o tênis são "pessoas rebatendo bolinhas verdes de uma ponta a outra da quadra".

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    Respostas
    1. 1) Verdade, mas isso não isenta a maratona de nada apenas põe a culpa também em outras atividades :) Mencionei maratona pois nada nunca me deixou tão quebrado quanto uma maratona.

      2) Dar trabalho é bom. Só acho que não tenho mais vontade de fazer "o" trabalho que a maratona dá, que é corrida demais e outras atividades mais funcionais de menos. Quero variar mais minhas atividades.

      3) Você realmente não disse nada que fosse contra o meu argumento. "O movimento é tão repetitivo quanto o do turismo sedentário" Sim, o turismo sedentário também é bem artificial, mas acho que dá para aproveitar melhor. Correndo eu não presto atenção a quase nada.

      4) Não tem nada de natural em "vou correr 42Km em 3h30". Foi só isso que quis dizer. Acho que dá pra dizer com segurança que em nenhum momento na história da humanidade o ser humano precisou correr uma distância específica por um determinado tempo. É claro que são várias as dimensões em correr uma maratona e algumas são bem naturais: desafiar-se, exercitar-se, etc.

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